Metabolismo felino e anestesia: por que o gato não deve ser tratado como um cão em miniatura?
Por: Gabrielle Coelho Lima, Joana Zafalon Ferreira (joana.zafalon@ufjf.br)
Você provavelmente já ouviu alguém dizer que gatos são “cães pequenos” ou pensar que eles precisam dos mesmos cuidados que os cães. Porém, o gato doméstico (Felis catus) apresenta particularidades fisiológicas e metabólicas, o que faz com que não seja correto tratá-lo apenas como uma versão reduzida dos cães. Essas particularidades influenciam diretamente em como seu corpo processa os medicamentos, incluindo anestésicos, tornando ainda mais necessário o uso de protocolos individualizados na Anestesiologia Veterinária.
Uma característica importante dos felinos está relacionada às enzimas do fígado. Eles apresentam atividade reduzida da uridina difosfato glicuronil-transferase (UGT), enzima central no processo de metabolização dos fármacos. Como consequência, diversos medicamentos largamente utilizados com segurança em cães não são eficientemente metabolizados em felinos, acumulando-se no organismo em formas potencialmente tóxicas, aumentando os riscos durante e após a anestesia.
No caso da anestesia, essas diferenças metabólicas são muito importantes. A escolha dos medicamentos, suas doses e a frequência de administração precisam ser ajustadas para os gatos, já que protocolos usados em cães podem causar efeitos adversos graves nos felinos. Por exemplo, opioides como a morfina podem causar agitação ou desconforto, além de serem eliminados mais lentamente. O uso de certos anti-inflamatórios aumenta o risco de danos ao fígado e aos rins devido à deficiência enzimática. Além disso, o agente anestésico propofol, quando usado repetidamente, pode induzir a lesão oxidativa das hemácias, resultando em certos tipos de anemia, o que torna seu uso contínuo ou em doses altas mais arriscado em felinos. Por isso, o manejo anestésico em gatos exige atenção à escolha dos medicamentos, individualização da dose e monitoramento rigoroso durante todo o procedimento.
Portanto, tratar o gato como um “cão em miniatura” na anestesia é um erro. As limitações enzimáticas hepáticas, e as peculiaridades metabólicas tornam imprescindível a adoção de protocolos individualizados que garantam segurança anestésica e clínica. Reconhecer tais diferenças não apenas reflete o respeito às características fisiológicas próprias da espécie, mas constitui requisito indispensável para a boa prática veterinária e para a promoção do bem-estar animal.
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