Quarta, 04 Fevereiro 2026 13:47

Causa e efeitos do rompimento de barragem alteamento a montante em Minas Gerais

Rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Rastro de destruição deixado pelo despejo de rejeitos de minérios na bacia do Rio Doce. Rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG). Rastro de destruição deixado pelo despejo de rejeitos de minérios na bacia do Rio Doce. https://www.mpmg.mp.br/portal/menu/comunicacao/noticias/rompimento-da-barragem-de-fundao-em-mariana-resultados-e-desafios-cinco-anos-apos-o-desastre.shtml

Por Sâmela Barroso Nascimento Alvarenga Pereira (samela.barroso@estudante.ufjf.br)

Na mineração, existem diferentes metodologias de alteamento de barragens: montante, jusante e linha de centro. O que diferencia cada uma delas é o posicionamento dos diques e alteamentos subsequentes. Na barragem a jusante, a barragem é ampliada por etapas, em direção à sua parte externa. A barragem em linha de centro é ampliada com diques que se sobrepõem, de modo que o eixo da barragem se mantem alinhado ao eixo do dique inicial. No alteamento a montante, a barragem é ampliada com diques novos que se assentam sobre o próprio rejeito. Nesse caso, a barragem a montante produzia uma estrutura mais barata, por usar menos material, ocupando uma área menor, porém, menos segura. O solo da base da barragem ficava sujeito à perda de resistência e rigidez devido ao aumento de pressão, tornando-se mais suscetível à liquefação, especialmente após períodos de chuva prolongada e baixa drenagem. A liquefação consiste na perda de aderência entre partículas saturadas de água. Observamos esse processo no que chamamos “areia movediça”. Nesse caso, a areia impregnada de água adquire propriedades de um líquido viscoso, móvel e difícil de suportar peso, onde quem pisar pode afundar. No caso da barragem a montante, a mudança de comportamento do rejeito faz com que a barragem perca estabilidade e, consequentemente, se rompa.

Em Minas Gerais, em 05 de novembro de 2015, o rompimento da Barragem de Fundão, localizada no município de Mariana, foi um desastre ambiental, resultante da liquefação de rejeitos, classificado com alto potencial de dano ambiental. O rompimento da barragem causou efeito em cadeia, de acordo com Laudo Preliminar do IBAMA, danos ambientais, alterações dos padrões de qualidade da água, mortandade da biodiversidade aquática e fauna terrestre, destruição de áreas de preservação permanente e vegetação nativa da Mata Atlântica, destruição de estruturas públicas e privadas, desalojamento de populações, morte de moradores de comunidades afetadas e trabalhadores. Veja imagem do rompimento da barragem de Fundão acima.

Sabe-se que, por bioacumulação, os contaminantes dos rejeitos são absorvidos pelos seres vivos, quando assimilam essas substâncias a partir do meio ambiente (água contaminada, por exemplo) ou pela ingestão de alimentos contendo essas substâncias (legumes, verduras etc.). Além disso, existe o processo de biomagnificação que determina o acúmulo progressivo dessas substâncias ao longo da cadeia alimentar. Algumas substâncias podem ser tóxicas e se acumularem nos organismos como resultado de sua alimentação.

Os impactos do rompimento da barragem de Fundão foram complexos, e a recuperação exige um processo sustentável e de longo prazo. De acordo com uma avaliação detalhada publicada pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas, em 2022, a qualidade das águas do Rio Doce sofreu alteração em diversos parâmetros monitorados, tais como: presença de sólidos, ferro dissolvido e níveis totais ou dissolvidos de outros metais.

A legislação brasileira, através da Lei 14.066/2020, proíbe a construção ou o alteamento de barragem pelo método a montante - como era feito na Barragem de Fundão - atendendo aos requisitos de segurança.

Vários programas foram implementados na região mineira atingida pelos dejetos do rompimento da barragem visando minimizar os danos, administrar os esforços para restauração e promover pesquisas e elaboração de relatórios por empresas de consultoria a cargo do Ministério Público. Para avaliação dos resultados e compreensão dos efeitos ambientais, após o desastre, um Termo de Transação de Ajustamento de Conduta (TTAC) foi assinado entre Governo Federal do Brasil, estados de Minas Gerais e Espírito Santo e as empresas Samarco, Vale e BHP. O documento apresentou dois focos principais: reparação e compensação, abrangendo aspectos socioambientais e socioeconômicos impactados.

Mesmo com aportes de vários meios, alguns danos, como a contaminação de organismos por metais pesados, serão percebidos por gerações. Compreender causas e efeitos de impactos ambientais como esse pode favorecer avanços e proibições importantes para um progresso consciente e sustentável.


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