Conservação ex situ de Peixes Anuais
Por: Carlos Henrique de Carvalho, Nargir Marques de Araújo Filho, Mayler Martins (mayler.martins@ifmg.edu.br)
Peixes anuais são espécies que habitam poças temporárias, incapazes de sustentar vida aquática durante todo o ano. Durante a estação chuvosa, os peixes adultos depositam ovos no substrato. Na estação seca, esses ovos entram em diapausa, sobrevivendo por meses ou até anos no solo seco. Com a chegada das chuvas, os ovos eclodem, originando uma nova geração de peixes.
Geralmente, as poças que abrigam peixes anuais permanecem cheias por cerca de nove meses e secas por três meses. Por isso, o ciclo de vida desses peixes é curto, e eles apresentam um metabolismo acelerado, atingindo a maturidade reprodutiva em poucas semanas.
Este projeto visa à conservação da biodiversidade, essencial para a resiliência dos ecossistemas frente às mudanças climáticas. Os peixes anuais desempenham um papel crucial na manutenção da saúde dos ecossistemas em que vivem. Além disso, são pequenos, com comportamento, forma e coloração atraentes, o que lhes confere potencial para gerar renda local, por exemplo, através do turismo de observação. São as únicas espécies de peixes que habitam poças intermitentes, predando larvas de mosquitos transmissores de doenças, desempenhando assim um papel importante na saúde pública. Também possuem grande potencial para atividades educacionais. Portanto, a conservação dessas espécies traz benefícios ambientais e sociais significativos.
No Vale do Rio São Francisco, existem várias espécies de peixes anuais, especialmente no norte de Minas Gerais e sul da Bahia. No entanto, muitas dessas espécies são encontradas em uma única poça e estão ameaçadas de extinção, principalmente devido à destruição de seus habitats, além das pressões das mudanças climáticas.
Para evitar a extinção desses peixes, o Laboratório de Conservação de Peixes Anuais (LCPA) do IFMG Campus Bambuí mantém espécies para preservação ex situ. Contudo, a reprodução em cativeiro enfrenta desafios, como a desproporção sexual, já que muitas espécies apresentam um número muito maior de machos. O sexo dos peixes é geralmente influenciado por fatores ambientais, como os parâmetros físico-químicos da água. Assim, o LCPA conduz um projeto de pesquisa para investigar a influência do pH, temperatura e densidade de estocagem na proporção sexual dos peixes anuais.
A espécie estudada é a Hypsolebias auratus, nativa de uma poça temporária em Lagoa Grande/MG. No experimento, ovos eclodem e alevinos crescem em 40 aquários com diferentes pH e temperaturas. Após um mês, a quantidade de fêmeas em cada aquário é observada, seguida de análise estatística para determinar a influência do pH e temperatura na proporção de fêmeas e machos. O estudo está na fase de análise estatística, com resultados preliminares indicando que o sexo dos peixes é afetado por ambos os fatores.

Figura 1 – Machos do peixe anual Hypsolebias auratus.
Fonte: Os autores.
A pesquisa é realizada por alunos da graduação em Zootecnia e do Mestrado em Sustentabilidade e Tecnologia Ambiental. A coleta dos peixes foi autorizada através do SISBIO (nº 91342-1), e a metodologia foi aprovada pela CEUA.
Este trabalho contribui para o desenvolvimento de um protocolo de reprodução dessas espécies, permitindo sua conservação ex situ. Uma cartilha será elaborada como produto final, mostrando a influência dos parâmetros estudados na proporção sexual. Nos experimentos, os parâmetros físico-químicos da água são compatíveis com os do ambiente natural dos peixes em diferentes estações do ano, garantindo que não sofram desconforto ou sofrimento.
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